quarta-feira, 29 de agosto de 2007
























"... Eu me desnudo emocionalmente quando confesso minha carência – que estarei perdido sem você, que não sou necessariamente a pessoa independente que tentei aparentar. Na verdade, não passo de um fraco, cuja noção dos rumos ou do significado da vida é muito restrita. Quando choro e lhe conto coisas que, confio, serão mantidas em segredo, coisas que me levarão à destruição, caso terceiros tomem conhecimento delas, quando vou a festas e não me entrego ao jogo da sedução porque reconheço que só você me interessa, estou me privando de uma ilusão há muito acalentada de invulnerabilidade. Me torno indefeso e confiante como a pessoa no truque circense, presa a uma prancha sobre a qual um atirador de facas exercita sua perícia e as lâminas que eu mesmo forneci passam a poucos centímetros da minha pele. Eu permito que você assista a minha humilhação, insegurança e tropeços. Exponho minha falta de amor-próprio, me tornando, dessa forma, incapaz de convencer você (seria realmente necessário?) a mudar de atitude. Sou fraco quando exibo meu rosto apavorado na madrugada, ansioso ante a existência, esquecido das filosofias otimistas e entusiasmadas que recitei durante o jantar. Aprendi a aceitar o enorme risco de que, embora eu não seja uma pessoa atraente e confiante, embora você tenha a seu dispor um catálogo vasto de meus medos e fobias, você pode, mesmo assim, me amar..."

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

...astro.

em teu corpo, lânguida amante,
me apraz contemplar, como um
tecido vacilante, a pele a faiscar.
em tua fluida cabeleira de ácidos
perfumes, onde olorosa e
aventureira de azulados gumes,
como um navio que amanhece mal
desponta o vento, minha alma em
sonho se oferece rumo ao
firmamento teus olhos que jamais
traduzem rancor ou doçura, são
jóias frias onde luzem o ouro e a
gema impura. ao ver-te a cadência
indolente, bela de exaustão,
dir-se-á que dança uma serpente
no alto de um bastão. ébria de preguiça infinita,
a fronte de infanta se inclina
vagarosa e imita a de uma elefanta.
e teu corpo pende e se aguça
como escuna esguia, que às praias
toca e se debruça sobre a espuma
fria. qual uma inflada vaga oriunda
dos gelos frementes, quando a água
em tua boca inunda a arcada dos
dentes bebo de um vinho que me
infunde amargura e calma, um líquido
céu que se difunde astros em minha alma!

sábado, 4 de agosto de 2007

Todo carnaval tem seu fim...



o finalmente dói um pouco, pois veio depois de muita estrada ruim. e mesmo que eu tenha perdoado tudo, absolutamente tudo, e conseguido me livrar do morto que carregava nas costas, fico nervosa pra me colocar no mercado novamente. ultimamente estou um pouco fria e não consigo sentir muitas coisas. fico pensando se criei, sem ao menos saber, um mecanismo de defesa. logo eu, tão cheia de intensidade, tão cheia de impulsos, tentando controlar as coisas para que não transbordem. e isso é esquisito, acreditem, porque mal posso esperar por um novo momento de sentimentos fortes demais. não consigo entender como é que os outros fazem e sei que sou assim e ponto. no fundo ainda tenho vontade de mudar um monte de coisas e mesmo quando me jogo nas minhas loucuras afirmando que não ligo pra nada, sinto uma pequena pontada no peito. é difícil me imaginar sendo de outro jeito, eu sei. não posso culpar ninguém pelos olhares, pois sei que demonstro muitas coisas pelas noites da cidade imunda. mesmo assim sei que consigo, ou pelo menos já consegui uma vez. todo este caos em volta de mim acaba me deixando meio anestesiada e eu queria muito sentir a beleza da vida, calma como ela é. procuro paz de espírito e paz pro meu coração envenenado. procuro um mundo onde as pessoas sejam simplesmente quem elas são. essa é, sem dúvidas, uma das coisas que eu sei fazer como ninguém. e depois desses fins de semana de amnésia, com dor em todos os ossos, não consigo evitar o pensamento. queria alguém que me fizesse dançar de novo, alguém para dormir abraçada e me dedicar. porém sei que alguma coisa está com defeito e que o caminho vai ser longo dessa vez. todos os acontecimentos de agora, ficam trancados dentro de quatro paredes. não quero andar de mãos dadas com todas essas pessoas que vem e vão como estações. tudo fica no quarto e depois só quero ir embora. quando vou atravessar a rua, porém, fico sempre imaginando a materialização dos meus pensamentos. quem sabe amanhã será o dia.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Meu tédio


ela só tinha 15 anos. a vida inteira por viver. o destino já traçado. muito tempo pra se arrepender; ela só tinha 15 anos. e uma justiça especial. qualquer poder constituído. era encarnação do mal; ela pregava: "revoltem-se, irmãos. não se deixem intimidar. a história nos apoiará"; ela só tinha 15 anos e um brilho estranho no olhar. não tinha nada a perder. nada que devesse amar; ela só tinha 15 anos e um ódio cego no coração. quando foi vista pela mãe, com uma arma na mão. ela gritava: "chumbo neles, filha. você é a vingadora. eles vão te temer."; ela só tinha 15 anos. seguia um ideal. qualquer poder constituído era encarnação do mal; ela só tinha 15 anos. era uma heroína na revolução. desfilando em carro aberto, acenando pra multidão. ela prometia: "o poder será julgado, os fugitivos perseguidos e os culpados fuzilados"; ela só tinha 15 anos, quando tramaram o seu fim. um tiro destruiu seu cérebro - anunciava o boletim; ela só tinha 15 anos. vivia como um vegetal, ligado a equipamentos, um paciente terminal. sua mãe chorava: "ninguém pode contigo, filha. eu me orgulho de você. o mundo um dia vai saber..."

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Não há farça, não há mentiras!



minha pele é o mapa dos lugares por onde já passei. e eu não quero esconder as marcas, não são negativas, são diário. o que prestou, o que não prestou... tanto faz, sou eu. estou aprendendo a arte independente de cair sem travesseiro embaixo e, não dói. qualquer um que me tocar profundamente pode me machucar ou me curar. qualquer um que eu conquistar a atenção, pode me deixar ou me amar. um ou outro; simples. nada machuca, nada surpreende, nada corrói, nada dura. a pele se renova todos os dias. mas sim, sei que estou viva pra caralho. entediada, assumo, mas feliz. sei agora que tudo é. só é. fria de pedra, mas mais penetrante do que nunca. somente os olhos pra fora... quieta... caçando.

Meu presente




o que você é parece pote de ouro que caiu sobre minha cabeça depois de anos de chuva. a recompensa pelos band-aids e a prova de que a vida vale a pena ser vivida. e de agora em diante os céus estão claros, mesmo quando há tempestade. agente espera a chuva passar e no final existe o arco-íris. e o lugar além a gente sabe que existe, de mãos dadas e olhos fechados, além da compreensão das palavras das muitas páginas dos dicionários. a outra metade, a razão superior, o sentido estampado no meu sorriso, a razão de toda manhã. e eu danço contentemente pela rua asfaltada, previamente tão empoeirada e eu não quero acordar nunca mais, mas estou acordadíssima. e eu não quero dormir e arriscar perder um momento se quer. de repente todo o passado faz sentido e os monstros criadores das cicatrizes me fazem sorrir e dizer obrigada. nenhuma casa é construída sem trabalho duro. as vezes os tijolos nos machucam e caimos no cimento, mas quando tudo passa a estar em seu devido lugar, não há nenhum rasto de razão para dizer que a vida não é bela.